Monday, February 23, 2009

Slumdog...


Fico estúpida com as críticas a este filme... é incrível como de repente nos tornámos susceptíveis à crítica social. Temos una necessidade constante de por paninhos quentes na realidade, sobretudo na realidade feia. Fomos contagiados pela onda zen-new-age que anda por aí e agora já nao podemos dizer branco ou preto, tudo tem de ser cinzento. Pobres, mas capacitados. Feios mas com carisma. Genial, mas polémico.

As críticas ao filme (desta categoria intelectual que se intitula "críticos de cinema"), vêm na ordem de "ah, porque mostra de uma maneira exagerada a pobreza em que vivem milhoes de indianos". Mmmmhh... entao nao há milhoes de indianos que vivem em situaçao de pobreza extrema? É ficçao?

Depois vêm os humanistas e críticos indianos dizer que o filme é uma difamaçao já pelo título. "Slumdog" seria, traduzido à letra, algo como "cao de gueto". Mas para quem viu o Trainspotting ou algum filme de Guy Ritchie, poderá ter a iluminaçao de relativizar um pouco o contexto em que se utiliza esta expressao...nao, nao é difamar, pelo contrario, é utilizar a realidade para ampliar o contraste que o filme pretende demonstrar...o lado mais positivo da vida que muitos consideram "menor" ou inferior".

Se este filme pode ser criticado por alguma coisa é por exagerar no tom "conto de fadas" do argumento, ainda que o toque "Bollywood" dado ao final, acabe por ser genial também...

Tuesday, January 27, 2009

Edgar Morin em Barcelona

Groundlessness (Desenraizar-se??)

Não é nada de novo, já vem das ideias de Dostoievsky : "O único pensamento que sobrevive é aquele que se mantém à tempreatura da sua própria destruição".

Edgar Morin, que imagino esteja muito próximo dos 90 anos, se não os tem já, é um daqueles pensadores notáveis que buscam incessavelmente melhores respostas para perguntas complexas. A ética é um dos seus grandes temas, assim como a educação para o pensamento complexo, pluridisciplinar. Morin revela-se um grande crítico da sociedade de super-especializados em que nos tornámos, apelando à transversalidade das grandes questões do desenvolvimento pessoal e social.

Na conferência falou com entusiasmo e grande simplicidade: espelha bem tudo o que defende.

Fala-nos de um caminho intermédio entre a verdade absoluta e o relativismo.
Nao é nada de esotérico, é simplesmente tomar consciência de que nao possuímos nenhum conhecimento totalmente fundamentado nem determinista, que nos possa levar a certezas morais.

Pensar com liberdade, sem "enraizarse" nao é mais uma forma de relativizar as coisas ou dizer que vale tudo. É algo mais exigente que isso. É uma busca permanente e disciplinada do conhecimento, na qual devemos considerar nao só o que nos pareça absoluto e claro, mas ao mesmo tempo a incerteza e "as zonas cinzentas" do mesmo conhecimento: é pensar ao mesmo tempo no conhecimento e nos seus limites. Longe de levarnos à destruiçao da possibilidade de criar ética, é justamente este o procedimento que faz com que a ética seja possível.

Como disse Varela: " a perda de un ponto fixo de referencia ou de uma "raíz", quer seja em nós mesmos, nos outros ou na relaçao entre ambos, é inseparável da compaixao, tal como o sao as duas faces de uma moeda ou as duas asas de um pássaro"

Esta abordagem à ética é difícil porque nos exige enfrentar a incerteza, mas ao mesmo tempo, também exige que declaremos que a ética realmente nos importa, que seja o que for que digam os relativistas, nós temos realmente interesses, preocupaçoes e sentimentos. Navegar entre estes dois lados: incerteza e preocupaçoes morais, deixa-nos um espaço aberto de possibilidades para enfrentar-nos a novas situaçoes com a mente realmente aberta.

Friday, January 23, 2009

1 año en Barcelona, con paso de 3 meses por Edinburgo

Barcelona....

Primeira coisa a assinalar depois de um ano em Barcelona: já nao sei falar português. Há 3 anos ouvia o Luis Figo em entrevistas, com aquele sotaque absurdo e excessivamente nasalado, e dizia "que absurdo, como pode alguém falar mal no seu próprio idioma?".
Desculpa Luis Figo...quando se misturam português, espanhol, catalao, italiano, francês, inglês....(e quando se têm mais de 30 anos?), há conexoes que deixam de ser possíveis...Lamento, mas sou portunhola (com til no a, de "catala", só que os teclados espanhóis nao têm til, só ñ...).

Segunda coisa a assinalar é que me sinto uma imigrante...nunca ouvi tantas vezes Jorge Palma, Sérgio Godinho, Deolinda...tudo o que venha no meu idioma natural tem um especial brilho. Falar com alguém que esteve em Lisboa deixa-me nostálgica. Compro vinho português quando vou jantar com amigos. Faço bacalhau para receber amigos em casa...Mais uma vez, desculpem-me os descendentes de imigrantes franceses por todas as piadas parvas...

A terceira e mais grave é que me sentí desenraizada na última vez que estive em Portugal...a minha cidade parecia-me uma casinha de bonecas. Os tamanhos ganharam nova dimensao, transformaram-se (como voltar a ver a escola primária anos depois). Portugal é tao pequeno...ainda que muito charmoso :)

E...o mais interessante...a sensaçao de que posso viver em qualquer sítio...creio que, de alguma maneira, construí a "minha casa" dentro. Sou itinerante (trabalhar com uma federaçao de ciganos dá uma expressao ainda mais gira a esta sensaçao).

Viver numa cidade de "passo" dá-nos uma energia estranha...

Tuesday, February 12, 2008

Niños Perversos



Declaraciones del obispo de Tenerife, Bernardo Álvarez, en una entrevista para "La opinión", sobre el tema del abuso sexual de menores:

"Hay menores de 13 años que están de acuerdo (en tener relaciones sexuales) y, además, deseándolo. Incluso si te descuidas te provocan."

¡Vaya! Pobres sacerdotes! Niños perversos insinuandose ante inocentes religiosos... ¡ya no sé dónde vamos a ir a parar! (La vieja excusa: "la tia llevaba minifalda, que esperava?)

Pero hay más. Este solene representante de la Iglesia ha añadido:

"Esto de la sexualidad es algo más complejo de lo que parece."

¡Ui! ¿Habla la voz de la experiencia, honorable obispo?

¡Vaya si es compleja la sexualidad! Ya se sabe que el ambiente católico es muy propicio para el despertar de la libido. Cuando un niño se educa en la catequice... Lo que tengan en la mente los catequistas no les influye en nada! Son ellos, los perversos! Son diablos en miniatura!

Y me pregunto ¿como despertarán el interès de los divinos y integros curas, estes monstritos?

Ah, claro, puede que sea con sus voces angelicales, forzadas para atormentar las mentes puras de sus religiosos profesores. Y con sus cutis finos y suaves... es que utilizan cremas de belleza, para disfrazarse . Todo para generar deseos insanos!

¡Dios!

Saturday, February 09, 2008

Extrangeros. Los queremos? Nos agobian?

Eligi mi tema de investigación, finalmente. Inmigración.

En Barcelona, cada vez más siento que hay una paradoja con la expresión "interculturalidad". Por una parte, sí que es una ciutad abierta, multicultural, endonde cada uno tiene su plaza y puede salir adelante. Hay espacio. Sin embargo, cuándo hablamos con la gente que ha vivivo aqui toda la vida, hay expresiones como estas, de los residentes en Raval:


"- Estamos invadidos, de verdad, de verdad…
- La calle Trafalgar ahora se ha vuelto toda china. Han echado a todos los españoles…
- Vas por el barrio y te da pena porque parece el Afganistán actual. El Afganistán actual, me refiero que es que es una gran pena, no parece ni tu país, tu país y tu ciudad…
- A la Rambla del Raval le tendrían que poner La Rambla de Morolandia. "


(Sacado de un estudio de Carmen Enriquez, de la UNED)


No se trata de una población racista o xenófoba. Para nada. Se rechaza esa etiqueta. Sin embargo, la concentración de inmigrantes produce entre los barceloneses una sensación desagradable de invasión, de pérdida de dominio de su espacio.

Inmigrantes y autóctonos viven juntos pero aislados. La comunicación entre ambos no siempre es facil, tanto por la tendencia de los inmigrantes a relacionarse con sus co-nacionales y otros inmigrantes, como por el "encerramiento" de los autóctonos en su mondo familiar. A esto hay que añadir obviamente las dificultades con el castellano o catalán.

El tema del catalá me apasiona cada vez más. Es difícil hacer cualquier generalización, pero es muy curioso que, muchas veces, aunque sepan hablar catalá, los inmigrantes que lo intentan utilizar con catalanes son "sutilmente" rechazados. Tengo ohído varias personas extranjeras residentes con relatos similares: por el hecho de que se les veen como extranjeros, de pronto cambian para castellano. Como se fuera raro hablar con alguién "exterior" en la lengua materna- un intento de auto-preservación?

La convivencia entre autóctonos e inmigrantes en los barrios y pueblos de Barcelona depende mucho de la proveniencia. Parece que la convivencia es peor y las relaciones son más difíciles con los inmigrantes de origen marroquí, los cuales, además, constituyen el grueso de la inmigración en España. Y habría que precisar más: no se trata de los marroquíes en general, sino de sus adolescentes, la 2nda y 3ra generación- la que ha perdido sus raices y que todavia no hallaran un espacio confortable en su pays de acogida. Un fenomeno similar al que se vive en Portugal con las generaciones descendientes de los caboverdianos que inmigraran en los años 60/70.

Aprofundizaré...

Monday, February 04, 2008

Tarde o conheci...mas tenho de homenageá-lo!



«...um dia a sua leitura há-de passar a ser obrigatória nas escolas para que a tal "liberdade em estado puro" transforme este país "cada vez mais pobre" numa nação saudavelmente ateísta, anarquista e bem-disposta.»

Luíz Pacheco! Escritor, editor, polemista, crítico de literatura. De feitio irascível e pouco tolerado.
Origem alentejana, com antepassados militares. Pai funcionário público e músico amador. Na juventude, envolvimentos amorosos com menores, que o levaram por duas vezes à prisão.
Vida atribulada, sem meio de subsistência seguro para sustentar a família crescente (oito filhos de várias mulheres), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues.
Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles.
Tornou-se famoso (e temido) pelas críticas literárias sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista. A sua obra literária tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista".
Alto, magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas muitas vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho, hipersensível ao álcool, hipocondríaco sempre à beira da morte, cínico impenitente, assim o descrevem.
Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado para casa do seu filho Paulo Pacheco em 2006 e daí para um lar, no Montijo, onde viria a falecer.

"AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!

Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur ("O Enjeitadinho"? "O Corcundinha"?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: "Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada". Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros.
Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias).
Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar... Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.

Largo o casaco e a sacola num tasco. Meto mais verde. Telefono ao. Victor de Sá, a quem vinha incumbido de entrevistar para a "Seara". Grande confusão política em Braga: há duas listas da Oposição, uma, a boa, que o Governo cortou, "da maneira mais arbitrária...", diz-me o V.S.; outra, a dos moderados ou mortos (é o termo dele). E que não dá entrevista, que tem muito que fazer, que estão a estudar uma reclamação ou petição, etc. Oh diacho, é outro caso de pré-deputado ou candidato a deputado, que chega ao dia das eleições sem saber se vai, se o deixam ir, se lhe contam os votos, se as listas de eleitores lhe são facultadas, a cegada do costume. E duas listas da Oposição, em Braga?!... É para ver se perdem mais depressa, ah!... ah!... (isto sou eu a rir-me dos políticos de Braga). Concluo que em Braga a política é uma trampa, uma trampa aflita em dias de sol deste, com raparigas na sua folga de domingo, o Vianense a jogar contra o Braga, logo excursões de Viana ali perto, com certeza - e a Deolinda perdida entre azinhagas e casas velhas, o lugar de Assento ao pé da igreja, a Deolinda ainda não esquecida mesmo depois do frango do almoço. Vou-me a ela!

Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou. Olha para trás, por vezes. Já comunicou à parceira. A andar, a andar, chegamos a uma espécie de logradouro público, com certo ar antiquado e bancos largos de pedra, onde finda a linha dos eléctricos para o estádio (vejo o nome, Estádio 28 de Maio, oh a Política!, ah! ah!, isto só em Braga). Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. Sento-me num banco e faço de grão-senhor, porque assim disfarço as calças rotas no rabo. A miúda mais bonita dá-me uma chance? (será isso?). Atira-se a dizer: "Eu sento-me já aqui", e vem toda lampeira para o meu banco, mas depois passa ao do lado. Manobra provocatória, mas feita por uma quase amadora? assim o entendi, e lanço-lhe uns olhares de desfazer pedras, o meu olhar mágico, de megatoneladas de cio (assim penso, mas com as 17 ou mais dioptrias e o estigmatismo e as lentes, e as clarabóias do verde, que olhar será o meu?). A trupe das estúpidas, porém, escolhe um banco lá pro fim e depois ficam todas sentadas e de costas umas para as outras e caladas. Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas. Crio fastio de posar ao grão-senhor, distraído e benevolente com a paisagem. E começo a deambular, de árvore para árvore, e vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultadodão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada; outro, assim: Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa, ao lado da bolota que me caiu em cima dos ombros esta manhã e considero um talismã... ora agora aqui se podem rir da minha infantilidade, mas olhem que vi O Mundo a Seus Pés. Viram ? A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha, isto se chegarmos à fala, do que já começo a duvidar; sinto que estou a perder tempo (como o outro tonto, a redigir petições sinceras) e precipito os acontecimentos.
Aproximo-me do banco delas e faço um jogo declarado de olhares furiosos, de cem megatoneladas, para a gorducha lorpa, que é a que me deita as trombas de frente; a outra, a sagaz, está de costas. A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. Vou-as seguindo a distância, e pelo caminho inda catrapisco umas malfeitonas que andam a saber o seu Destino numa maniqueta chegada da América que diz se o que se tem no pensamento sairá certo ou errado, e dá uma sina disparatada a cada cliente, tudo por dez tostões (esqueci-me de dizer que no caminho para lá, para o repouso ao pé do estádio, a miúda gira tinha ido consultar a maquineta, muito azougada e preocupada com o seu futuro, e foi aí, até, que reparei como era vivaz e um tanto parecida (ou não seria ilusão minha?), nos modos e cabrice, com a Geninha. Começo a ver que, com guardiã à perna e saloias até mais não, destas fulanas não levo nada. Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: "Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...". O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou.
Anarquismo minhoto!______(1) o cinismo da personagem é bem evidente nesta palavra de simpatia, não acham?(2) Uma miudinha esfarrapada e esperta, um-padre-Amaro-sósia-do-outro; uma capelita com escadaria Bom-Jesus em miniatura (lembro-me de subir lá acima e fazer um pacto; mas a escadaria é alta, ainda); uma bonita minhota de cetim preto, com olhos largos e calmos, belos olhos que nunca mais verei.(3) Umas miúdas de 4, 5 anos, a quem peço tremoços e castanhas, e depois ficam muito excitadas, e começam a levantar as saias umas às outras, dizendo (quem diz, é uma desdentadinha, magrizela e encarvoada): «Mostra a zabelinha, mostra a zabelinha a este senhor!». Olha que putitas!
Luiz Pacheco, com 82 anos

Wednesday, January 30, 2008

Aprofundizando as raízes catalás....os calçotes

Este fim-de-semana tive mais uma experiência cultural catalá digna de nota...provar os afamados calçotes.



"El CALÇOT es un ceba tendra, blanca i dolça, que cuita al foc viu és la base de la CALÇOTADA, convertida en un regal per al paladar, capaç de satisfer els més exigents gourmets. La CALÇOTADA de Valls és una especialitat única de la cuina rural típica catalana. Aquest menjar tan típic té el seu ambient, la seva llum i la seva personalitat a la ciutat de Valls, on va néixer i on es va fer famosa la frase; "Valls, ciutat d'origen de la CALÇOTADA"



O ritual é espantoso. Usas um babete, retiras a primeira camada da cebola que está queimada da brasa e molhas "à fartazana" no molho. Como se trata de um vegetal com o seu quê de fálico, comê-lo tem o seu quê de badalhoquice medieval. Ideal para partilhar com um grupo divertido como a família couchsurfing de BCN e de Milao. A repetir!